
Para não perder tempo (e dinheiro) fazendo diversas versões de um mesmo site para atender a todos os gadjets que utilizamos, a possibilidade de criar websites multiplataformas é muito discutida atualmente.
Com o objetivo de saber como anda a trama (de muitos capítulos) dessa novela, a Tritone resolveu bater um papo com Zeh Fernando, que há 17 anos trabalha com desenvolvimento de interfaces e, atualmente, é Desenvolvedor Sênior na Firstborn, um premiado estúdio de tecnologia em Nova York.
Primeiramente, gostaríamos que falasse sobre o termo "Responsive Web Design" - Web Design para Multiplataformas.
Zeh Fernando - Infelizmente não acho que exista uma boa tradução para esse termo. Design compreensivo? Sensível?
De qualquer forma, o termo representa uma mudança de paradigmas que é bem real. Estamos vendo a necessidade de criar soluções que funcionem para todo tipo de plataforma, e quando isso acontece, é inevitável que comecemos a pensar mais no conceito da solução – o que ela trará – do que no formato que ela terá. De certa forma, é criada uma separação entre forma e a função de um website, então força estúdios e agências a repensar sua estratégia.
Com as tecnologias existentes é possível criar tais websites de maneira viável para o cliente?
Zeh - A questão é meio subjetiva, mas sim. É uma mudança de pensamento, de design, de desenvolvimento: desistimos da ideia de criar uma solução única para atingir um certo objetivo, e passamos a considerar uma solução mais flexível, líquida, que segue uma linha conceitual, mas com flexibilidade em sua atuação. Afinal, ao criar um site que deve funcionar ao mesmo tempo em um dispositivo móvel e em computador, existem desafios diferentes em cada plataforma.
Acaba sendo mais oneroso?
Zeh - Pra ser sincero, acho que julgar por esse lado não é muito sadio.
Por um lado, sim, acredito que seja mais oneroso. Ao desenvolver um website para vários dispositivos, por exemplo, o número de plataformas onde você tem de testar a qualidade do produto final pode aumentar exponencialmente. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento de websites realmente funcionais entre várias plataformas também está dando seus primeiros passos, então o conhecimento e a experiência são raros no meio.
Por outro lado, esse processo é parte integral do mercado de tecnologia. Mudanças radicais são uma constante. É algo que profissionais devem sempre esperar. Os melhores profissionais de tecnologia e criação são definidos pela adaptabilidade a seu meio, e não pela retenção de conhecimento (embora experiência tenha muito valor).
Mudanças como a que estamos vendo agora devem ser abraçadas. Elas são naturais.
Quais são os benefícios da adoção de um website multiplataformas para o cliente? Existem contraindicações?
Zeh - Tudo depende do serviço que o cliente presta. Antes de qualquer website ser proposto, deve-se julgar qual o mercado que ele visa atingir, e em qual contexto. Estudos de casos semelhantes, ou análise das estatísticas do mercado de um serviço ou produto, quando existentes, são provavelmente as melhores ferramentas para isso.
Alguns sites não fazem sentido em dispositivos móveis; outros podem não fazer sentido em um desktop; outros fazem sentido em ambos, embora a solução possa não ser a mesma. Não existe solução única. Imagino que ter design consciente ou sensível neste caso é, também, criar uma solução moldada para cada caso, ao invés de se tentar uma solução única.
Existem alguns recursos tecnológicos de produção “pendentes” ou que devem ser aprimorados para que haja uma popularização dos websites multiplataformas? Por que, afinal, todos os sites não são produzidos dessa maneira?
Zeh - Todo o ecossistema tecnológico usado para desenvolvimento de websites está em constante evolução, então sempre existirão recursos que, num futuro próximo, tornarão o trabalho de um desenvolvedor mais fácil, mais prático, mais rápido ou mais interativo.
Imagino que a razão real pelo qual muitas soluções online não sejam realmente pensadas para várias plataformas é por uma inércia do mercado. De um jeito ou de outro, decisões sobre um website, um portal ou um jornal são feitas por agentes que nem sempre estão conscientes, ou convencidos, do que o futuro está preparando. Nesse sentido, é mais fácil uma decisão ser tomada quando parece inevitável.
Aqui nos Estados Unidos, por exemplo, é surpreendente o número de portais de grandes veículos de comunicação – como jornais – sem um website que funcione corretamente em dispositivos móveis, mesmo smartphones de ponta. Muitas vezes me pego seguindo o link de um artigo que vi no Twitter, Facebook, ou algum RSS, e sendo redirecionado para um website de carregamento lento e leitura difícil simplesmente porque está formatado para desktops.
Quais sãos obstáculos do lado do cliente e do lado da produção?
Zeh - O cliente precisa entender a necessidade de websites para cada situação. Nesse sentido, vale a pena analisar os dados de visitantes de um website para checar se muitos deles estão vindo de dispositivos móveis. É algo que hoje é pequeno, mas tende a crescer.
Outro aspecto, importante para o cliente e para produtora que está criando o site, é entender que as diferenças entre dispositivos vão além do hardware (tamanho da tela, dispositivo de entrada de dados, processador, etc). Existe uma diferença de contexto enorme entre cada dispositivo. O exemplo clássico é o do restaurante. Alguém visitando o website de um restaurante no seu computador provavelmente adorará ver fotos do local num slideshow; o propósito do website, nesse caso, é impressionar o visitante. Já se alguém está visitando o website através de um dispositivo móvel, é mais provável que essa pessoa esteja fora de casa – provavelmente, procurando o endereço ou telefone do restaurante, então essas informações devem estar facilmente acessíveis. Um slideshow com fotos do local deve ficar em segundo plano.
No aspecto técnico, o desenvolvimento de websites multiplataforma traz novos desafios, mas como disse, é parte do processo natural de transição entre novas plataformas e tecnologias.
O que falta para os websites multiplataformas serem disseminados, tornando-se convencionais?
Zeh - Entendimento de sua necessidade por parte do cliente, e difusão de conhecimento para sua implementação por parte de agências e produtoras.
Como você acredita que serão os websites futuramente nesse quesito? Existem ainda muitas evoluções a serem feitas, questões a serem solucionadas?
Zeh - A evolução é constante. As questões nunca acabarão. Faz parte do jogo e é a parte divertida da coisa toda. Para quem gosta de encontrar soluções criativas para desafios na área de tecnologia, o futuro é brilhante.

Sobre Zeh Fernando
Tem trabalhado com desenvolvimento de interfaces gráficas há 17 anos. Sua carreira evoluiu da criação e manutenção de aplicativos em CD-ROM para desenvolvimento de websites em Flash, tarefa que vem cumprindo há 13 anos, bem como desenvolvimento de aplicativos para dispositivos móveis.
Seus projetos open source lhe renderam fama por criar e manter algumas das bibliotecas mais utilizadas por desenvolvedores Flash ao redor do mundo, incluindo MC Tween e Tweener, dois pacotes para a criação de animação através de código. Zeh também tem escrito e sido citado em diversos artigos sobre a tecnologia de desenvolvimento de interfaces para mídia impressa e online, e como instrutor, lecionou aulas de Flash e Processing para alunos de graduação em São Paulo. Desde 2009, ele tem trabalhado como desenvolvedor Sênior na Firstborn, um estúdio de tecnologia premiado em Nova York.
Site: www.zehfernando.com
Trabalho: firstborn.com (NY), desde 2009.